19.2.07

Fresta

Foto colhida na net, aqui.


Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,

Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou aterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado

Revivo, existo, conheço,
E, ainda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.

(Fernando Pessoa)

14.2.07

Anjo do teu corpo

Shine, foto colhida aqui


A parte que é
anjo
do teu corpo

e me procura a meio
da madrugada

Sobrevoando o lago
que é suposto
ser no meu sono
aquilo que calava

A parte que é
anjo
no teu corpo

e me visita
a meio da madrugada

descansando as asas
dos teus ombros
a meu lado:
em cima da almofada

(Maria Teresa Horta)

10.2.07

Aonde

Foto de Nanã Sousa Dias colhida aqui.


Ando a chamar por ti, demente, alucinada,
Aonde estás, amor? Aonde... aonde... aonde?...
O eco ao pé de mim segreda... desgraçada...
E só a voz do eco, irónica, responde!

Estendo os braços meus! Chamo por ti ainda!
O vento, aos meus ouvidos, soluça a murmurar;
Parece a tua voz, a tua voz tão linda
Cantando como um rio banhado de luar!

Eu grito a minha dor, a minha dor intensa!
Esta saudade enorme, esta saudade imensa!
E só a voz do eco à minha voz responde...

Em gritos, a chorar, soluço o nome teu
E grito ao mar, à terra, ao puro azul do céu:
Aonde estás, amor? Aonde... aonde... aonde?...

(Florbela Espanca)

4.2.07

Pantera

Foto colhida na net, aqui.



No Jardin des Plantes, Paris


De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

(Rainer Maria Rilke)
(Tradução: Augusto de Campos)

23.1.07

Aquela Ilha ...


Aquela Ilha esquecida
Que eu habito adormecida
Que, à noite, eu vou habitar;

Aquela Ilha encantada
Que não se encontra de dia,
Pois fica na madrugada;

A Ilha não descoberta,
Onde a criptoméria aberta
Espalha em volta o luar;

A Ilha desconhecida
Que pelos caminhos do sonho
Se mostra a quem a buscar.

Àquela Ilha distante,
Não há ninguém que se afoite ...

Aquela Ilha esquecida
Que só tem um habitante:
Eu que lá vivo de noite ...

(Natália Correia)

19.1.07

Retrato

Foto colhida na net, aqui

No teu rosto começa a madrugada.
Luz abrindo,
de rosa em rosa,
transparente e molhada.

Melodia
distante mas segura;
irrompendo da terra,
quente, redonda, madura.

Mar imenso,
praia deserta, horizontal e calma.
Sabor agreste.
Rosto da minha alma.

(Eugénio de Andrade)

12.1.07

Sem título e bastante breve


Tenho o olhar preso aos ângulos escuros da casa
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e
com elas quero construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor....

na verdade, estou derrubado
sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde,
não sei onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, á beira mar...

dizem que ao possuir tudo isto
poderia ter sido um homem feliz, que tem por defeito
interrogar-se acerca da melancolia das mãos....
...esta memória lamina incansável

um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
....que sei eu sobre as tempestades do sangue?
E da água?
no fundo, só amo o lodo escondido das ilhas...

amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão

(Al Berto)

3.1.07

Retrato Ardente



Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.

(Eugénio de Andrade)

30.12.06

Receita de Ano Novo



Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

(Carlos Drummond de Andrade)

Que 2007 vos traga uma pitada de tudo o que há de bom no mundo: Paz, Harmonia, Amor, Alegria, Saúde, Felicidade, ...

28.12.06

Improviso

Foto colhida na net, aqui.


Húmido de beijos
e de lágrimas,
ardor da terra
com sabor a mar,
o teu corpo
perdia-se no meu.

(Vontade de ser barco
ou de cantar)

(Eugénio de Andrade)

22.12.06

História Antiga



Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

(Miguel Torga)

Feliz Natal com muita Paz e Harmonia

15.12.06

As poucas palavras

Foto colhida na net aqui.

Foi um dia, e outro dia, e outro ainda.
Só isso: o céu azul, a sombra lisa,
o livro aberto.
E algumas palavras. Poucas,
ditas como por acaso.

Eram contudo palavras de amor.
Não propriamente ditas,
antes adivinhadas. Ou só pressentidas.
Como folhas verdes de passagem.
Um verde, digamos, brilhante,
de laranjeiras.

Foi como se de repente chovesse:
as folhas, quero dizer, as palavras
brilharam. Não que fossem ditas,
mas eram de amor, embora só adivinhadas.
Por isso brilhavam. Como folhas
molhadas.

(Eugénio de Andrade)

7.12.06

A inigualável

Foto colhida na net, aqui.

Ai, como eu te queria toda de violetas
E flébil de cetim ...
Teus dedos longos de marfim,
Que os sombreassem jóias pretas ...

E tão febril e delicada
Que não pudesses dar um passo -
Sonhando estrelas transtornada,
Com estampas de cor no regaço ...

Queria-te nua e friorenta,
Aconchegando-te em zibelinas -
Sonolenta,
Ruiva de éteres e morfinas ...

Ah! que as tuas nostalgias fossem guizos de prata -
Teus frenesis, lantejoulas;
E os ócios em que estiolas,
Luar que se desbarata ...

..........................................

Teus beijos, queria-os de tule,
Transparecendo carmim -
Os teus espasmos, de seda ...

- Água fria e clara numa noite azul,
Água, devia ser o teu amor por mim ...

(Mário de Sá-Carneiro)

25.11.06

Impetuoso, o teu corpo ...

Foto colhida na net, aqui.

Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.


Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.

(Eugénio de Andrade)

18.11.06

Água viúva, chuva louca, ave estonteante

Imagem colhida na net, aqui.

Água viúva, chuva louca, ave estonteante,
sonho de triunfos como a nova folhagem,
escapa-se da morte, é a macieira na tempestade
e ainda louca, louca ainda e transparente, quase seda azul
treme como uma canção e como as cores da distância,
quando a luz carregada de frutos e de uma água de cigarras
veste as agulhas do pinheiro de pequenos recados para o vento.
As víboras acordam a erva carregada de instantes,
o desespero impiedoso abre trincheiras na saudade
onde as mãos descobrem o crime, as abelhas por terra,
a lua na relva, apatetada e doce.
Começa o vinho por recordar os olhos bêbedos de tristeza
e a uma porta, finalmente a uma porta, um guerreiro reúne
o silêncio das ágatas sob as vigias do vento.
O campo cobre-se de cidades que florescem das espadas
e nos ombros de um sangue imemorável aconchega-se o remorso
como um cisne no orvalho. O medo solta
os cavalos do amor e as últimas pombas.
O azul é, decerto, a memória de outro céu profundo.

Antes, muito antes do fogo, como arderam as lágrimas?

(Joaquim Pessoa)

12.11.06

É noite pura e linda

Foto de Victor Melo colhida aqui

É noite pura e linda. Abro a minha janela
E olho suspirando o infinito céu,
Fico a sonhar de leve em muita coisa bela
Fico a pensar em ti e neste amor que é teu!

D'olhos fechados sonho. A noite é uma elegia
Cantando brandamente um sonho todo d'alma
E enquanto a lua branca o linho bom desfia
Eu sinto almas passar na noite linda e calma.

Lá vem a tua agora... Numa carreira louca
Tão perto que passou, tão perto à minha boca
Nessa carreira doida, estranha e caprichosa

Que a minh'alma cativa estremece, esvoaça
Para seguir a tua, como a folha de rosa
Segue a brisa que a beija... e a tua alma passa!...

(Florbela Espanca)

4.11.06

Pele

Foto colhida aqui.

Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser pele da minha pele

(David Mourão-Ferreira)

27.10.06

O amor cerra os olhos ...

Foto colhida na net, aqui.

O amor cerra os olhos, não para ver mas para absorver: a obscura transparência, a espessura das sombras ligeiras, a ondulação ardente: a alegria. Um cavalo corre na lenta velocidade das artérias. O amor conhece-se sobre a terra coroada: animal das águas, animal do fogo, animal do ar: a matéria é só uma, terrestre e divina.

(Alexandre O'Neil)
in Três Lições Materiais(1989)

20.10.06

Toca-me onde me dói ...

Foto colhida na net, aqui.

Toca-me onde me dói e verás
uma flor a abrir-se lentamente
sobre a pele, a maravilha nunca
adivinhada de um mistério. Esta

é a tua vez de o desvendares .
paixão é uma palavra demasiado
antiga no meu corpo, já não sei a
última vez, a única vez. Toca-me

por isso devagar, não me lembro
da primavera que fez nascer a
doença sobre a ferida, não sinto
o recorte da cicatriz que o tempo

pousou nela. Agora chama-me ao
teu peito com as mãos, tal como a
chuva chama pelos narcisos sem

cessar, ano após ano; diz o meu
nome com os dedos a serem rios
que latejam no coração adormecido

de uma aldeia. Não me adivinhes .
lá, onde me doer, vou recordar-me.

(Maria do Rosário Pedreira)

9.10.06

Superação

Foto colhida na net aqui.

Fechei-me dentro dos muros
onde o meu corpo não cabia
contente de ser priosioneira
do cárcere que eu transcendia.

E fui no vento que tudo
tudo o que havia varria,
contente de ser mais veloz
que o vento que me impelia.

Fiquei suspensa dos ramos
que os meus cabelos prendiam
contente de ser o destino
da árvore em que me fundia.

E dei-me como leito às águas
dos sonhos que me transcorriam
contente de ser o curso
da água em que me esvaía.

(Natália Correia)