19.7.05

Melodia da tarde


Foto de Manuela Vaz
Passo a Passo


E morrem as ondas
Na areia fina a borbulhar.
E os rios cansados,
Cantam a melodia da tarde.

Escutando os tons escondidos
Como mãos submersas
Na roupa que nos cobre.
Eu daqui e tu do outro lado.
Nem sempre as palavras ficam bem
Na quietude do momento.
Basta deixar fruir
A musicalidade dos sentidos.

E as ondas morrem
Na areia fina a borbulhar.

(Adelaide Graça)

16.7.05

Recomeça...

Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só a metade
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado
O logro da aventura
És Homem, não te esqueças!
Só é a tua loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

(Miguel Torga, Diário XII)

12.7.05

Diz-me o teu nome ...


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Diz-me o teu nome - agora, que perdi
quase tudo, um nome pode ser o princípio
de alguma coisa. Escreve-o na minha mão

com os teus dedos - como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol da neve com os
sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,

como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro - assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o

nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.

Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo - um nome sim.

(Maria do Rosário Pedreira)

8.7.05

Viagem




Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé do marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar ...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura ...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

(Miguel Torga)

6.7.05

Canção entregue ao nada


http://pro.corbis.com/

Hoje venho oferecer esta tristeza às coisas
No gesto esquivo de não as desejar.
Pôs em minha alma como o sol nas frias lousas
A vida o gosto de esplandecer em recusar.

São-me alheias estas margens onde corre
O destino que aos dados aos deuses eu lancei.
O que me dói é ver que tudo morre
Noutras mãos em gestos que tracei.

(Natália Correia)

3.7.05

Superação


Foto de Manuela Vaz
Passo a Passo

Fechei-me dentro dos muros
onde o meu corpo não cabia
contente de ser priosioneira
do cárcere que eu transcendia.

E fui no vento que tudo
tudo o que havia varria,
contente de ser mais veloz
que o vento que me impelia.

Fiquei suspensa dos ramos
que os meus cabelos prendiam
contente de ser o destino
da árvore em que me fundia.

E dei-me como leito às águas
dos sonhos que me transcorriam
contente de ser o curso
da água em que me esvaía.

(Natália Correia)

1.7.05

Canção a caminho do céu



Foram montanhas? foram mares?
foram os números...? - não sei.
Por muitas coisas singulares,
não te encontrei.

E te esperava, e te chamava,
e entre os caminhos me perdi.
Foi nuvem negra? maré brava?
E era por ti!

As mãos que trago, as mãos são estas.
Elas sozinhas te dirão
se vem de mortes ou de festas
meu coração.

Tal como sou, não te convido
a ires para onde eu for.

Tudo que tenho é haver sofrido
pelo meu sonho, alto e perdido,
- e o encantamento arrependido
do meu amor.

(Cecília Meireles)

26.6.05

Mulher


Foto de Pedro Gonçalves em
www.olhares.com


És tu. Mulher normal. Mulher inteira.
Olhos de amêndoa amarga. E peito doce.
Cisterna de água pura. Amendoeira.
Mulher de quem não sou. Mas antes fosse.

Tu és a flor do meu cantar de amigo.
Papoila no meu sangue amachucada.
De bruços a fazer amor comigo
na cama onde se deita a madrugada.

Mulher. Corça da noite. Erva do dia.
No peito duas rosas de alegria.
No ventre a rosa negra de cantar-te.

Mulher a quem desejo em plena rua.
A quem eu dispo. E ficas toda nua.
Que ali mesmo mulher eu quero amar-te.

(Joaquim Pessoa)

19.6.05

13.6.05

A Eugénio de Andrade

A um dos meus poetas de eleição, deixo esta homenagem, nas suas próprias palavras ... Também ele será eterno atavés da sua obra.


QUASE EPITÁFIO

O outro sabia.
Tinha uma certeza.
Sou eterno, dizia.

Eu não tenho nada.
Amei o desejo
com o corpo todo.

Ah, tapai-me depressa.
A terra me basta.
Ou o lodo.

(Eugénio de Andrade)

8.5.05

6.5.05

27.4.05

Nos teus olhos ...

Nos teus olhos raíz
revejo-me em saudade
Lago de meu pranto
raíz de árvore gritante
no abraço que me deste.

(Fernando Bouça)

24.4.05

25 de Abril dos cravos

.


Pormenor de um cravo, neste dia especial cujos ideais devemos lutar por manter. Que eles não se esfumem ...

20.4.05

botão de fogo a arder ...

16.4.05

Poema ao desejo


http://pro.corbis.com Posted by Hello

Empurra a tua espada
no meu ventre
enterra-a devagar até ao cimo

que eu sinta de ti a queimadura
e a tua mordedura nos meus rins

deixa depois que a tua boca
desça
e me contorne as pernas de doçura

Ó meu amor a tua língua
prende
aquilo que desprende de loucura

(Maria Teresa Horta)

15.4.05

Solitude Posted by Hello

14.4.05

Aos que passam pela nossa vida

Segue-se um texto de S. Exupery que, na sua singeleza, traduz algo importante: todos dependemos, necessitamos, somos uma parte do imenso bolo que é a vida... mais tarde ou mais cedo, porque somos todos feitos dos mesmos átomos de carbono, haveremos de nos cruzar e entrelaçar... Saibamos nós apreciar isso...


Cada um que passa na nossa vida, passa sozinho…
Porque cada pessoa é única para nós,
E nenhuma substitui a outra.
Cada um que passa na nossa vida passa sozinho,
Mas não vai só…
Leva um pouco de nós mesmos
E deixa-nos um pouco de si mesmos.
Há os que levam muito,
Mas não há os que não deixam nada.
Esta é a mais bela realidade da Vida…
A prova tremenda de que cada um é importante
E que ninguém se aproxima por acaso…

(Antoine de Saint Exupéry)