Por razões de saúde tenho estado ausente deste meu cantinho e da net em geral. Assim vou continuar ainda mais uns dias. Depois prometo regressar em força!
A todos quantos por aqui passam, um beijinho da
Pink
20.2.06
12.2.06
Mar, metade da minha alma é feita de maresia ...
Foto de Manuela Nunes, colhida aqui.Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.
E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.
(Sophia de Mello Breyner Andresen)
10.2.06
Para o meu coração ...
Alfred Gockel, Body Language IIIPara o meu coração basta o teu peito,
para a tua liberdade as minhas asas.
Da minha boca chegará até ao céu
o que dormia sobre a tua alma.
És em ti a ilusão de cada dia.
Como o orvalho tu chegas às corolas.
Minas o horizonte com a tua ausência.
Eternamente em fuga como a onda.
Eu disse que no vento ias cantando
como os pinheiros e como os mastros.
Como eles tu és alta e taciturna.
E ficas logo triste como uma viagem.
Acolhedora como um velho caminho.
Povoam-te ecos e vozes nostálgicas.
Eu acordei e às vezes emigram e fogem
pássaros que dormiam na tua alma.
(Pablo Neruda)
8.2.06
É noite pura e linda ...
Foto colhida na net, aqui.É noite pura e linda. Abro a minha janela
E olho suspirando o infinito céu,
Fico a sonhar de leve em muita coisa bela
Fico a pensar em ti e neste amor que é teu!
D'olhos fechados sonho. A noite é uma elegia
Cantando brandamente um sonho todo d'alma
E enquanto a lua branca o linho bom desfia
Eu sinto almas passar na noite linda e calma.
Lá vem a tua agora... Numa carreira louca
Tão perto que passou, tão perto à minha boca
Nessa carreira doida, estranha e caprichosa
Que a minh'alma cativa estremece, esvoaça
Para seguir a tua, como a folha de rosa
Segue a brisa que a beija... e a tua alma passa!...
(Florbela Espanca)
7.2.06
Paisagem
Foto colhida na net, aqui.Desejei-te pinheiro à beira-mar
para fixar o teu perfil exacto.
Desejei-te encerrada num retrato
para poder-te contemplar.
Desejei que tu fosses sombra e folhas
no limite sereno desta praia.
E desejei: «Que nada me distraia
dos horizontes que tu olhas!»
Mas frágil e humano grão de areia
não me detive à tua sombra esguia.
(Insatisfeito, um corpo rodopia
na solidão que te rodeia.)
(David Mourão-Ferreira)
4.2.06
Je n'ose pas songer ...
Foto colhida em http://pro.corbis.com/Je n'ose pas songer
à une plus subtile fidélité
que celle des sirènes.
Dans la mer elles attendent
leurs amants étouffés
pour leur donner à boire
le rêve dans leur veines.
(Natália Correia)
1.2.06
Abandono
Foto colhida em http://pro.corbis.com/A quem senão a ti direi
como estou triste? Mas se a tristeza vem
de tu não estares, como ta direi, como hei-
-de juntar o que me está doendo ao ven-
to que não bate mais à tua porta? Eu sei
que a tristeza é só isto, é só isto,
o descoincidir consigo mesmo, eu sei,
descoincidir com os outros, estavava previsto
porque dentro de si o mundo não coincide e
não há senão tristeza. Em cada um está Cristo
sempre abandonado, cada um abandonado
a si mesmo, sem princípio e sem fim,
pois no princípio o amor era dado
promessa de te ter sempre junto a mim
não ausência, nem dor, nem habitado
ser por este absurdo. Morrer
um pouco, disse, sem saber o que dizia
pois eram só palavras, como se a prometer
tudo aquilo que havia e não havia.
Não haver palavras és tu a desaparecer.
(Bernardo Pinto de Almeida)
29.1.06
Minha senhora de mim
Foto de António MatiasComigo me desavim
minha senhora
de mim
sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço
Comigo me desavim
minha senhora
de mim
nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços
Comigo me desavim
minha senhora
de mim
recusando o que é desfeito
no interior do meu peito
(Maria Teresa Horta)
28.1.06
Parábola
Foto retirada de http://pro.corbis.com/No silêncio do parque abandonado
O repuxo prossegue a sua luta;
É um desejar alado
A sair de uma gruta.
Ergue-se a pino no céu como uma lança;
Ergue-se a pino, e sobe na ilusão;
Até que a flor do ímpeto se cansa
E cai morta no chão.
Mas a raiz do Sonho não desiste;
Subir, subir ao céu, alto e fechado!
E o repuxo persiste
Na solidão do parque abandonado.
(Miguel Torga)
26.1.06
Fresta
Foto colhida em http://pro.corbis.com/Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,
Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou aterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado
Revivo, existo, conheço,
E, ainda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.
(Fernando Pessoa)
25.1.06
Plena mulher ...
Foto retirada de happycarpenter.blogs.com/Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
Que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos
e dois corpos por um só mel derrotados.
Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos ténues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo nocturno,
até ser e não ser senão na sombra um raio.
(Pablo Neruda)
23.1.06
Onde quero entender passa uma nuvem
Foto de Pedro Palma retirada de www.olhares.com/Onde quero entender passa uma nuvem.
Malogra-se na sombra o vão intento.
Por mais que à luz os pensamentos uivem
Próprio é da vida banir o entendimento.
Ingénuo o coração despe-se e nu vem
A inocência soltar do sentimento.
Que à sem-razão do coração se curvem
Discursos que motivam o sofrimento.
Se a viver só me entendo com o que ignoro
Mais ciente serei se rio ou choro,
Menos me assiste o pensamento ufano.
Sucumba a ideia que a razão instiga
A esclarecer-me; que a mente entregue à intriga
Do entendimento não logra mais que engano.
(Natália Correia)
21.1.06
Tudo o que ficou por dizer
Foto de Manuela VazTudo o que ficou por dizer
porque de repente
era a hora do combóio
ou um telefone longínquo tocava
ou um qualquer acidente
aconteceu.
Tudo o que ficou por dizer
porque o pudor calou a voz
porque um orgulho surdo a interrompeu
porque as palavras talvez já nem chegassem
ou era tarde
e o cansaço aos poucos foi levando a melhor.
Tudo o que ficou por dizer
porque a dor doía em demasia
e era necessário que as palavras
fossem capazes de ser claras como o ar
porque as palavras traem
como gumes de facas que nos cortam.
Tudo o que ficou por dizer
porque a tristeza apertou tanto a garganta
que nenhum som saía
nem o olhar continha
em desespero
uma lágrima ainda assim contida.
Tudo o que ficou por dizer
porque o tempo urgente
se esvaía
e de repente já não estava
no lugar a quem havia que o dizer
quem ainda há pouco nos ouvia.
Tudo o que ficou por dizer
e tudo
o que ficou por dizer
ou tudo
sempre
por dizer.
(Bernardo Pinto de Almeida)
20.1.06
Pudesse eu ...
17.1.06
Revelam-se puros os meus dedos ...
Nudes IV, de Alfred GockelRevelam-se puros os meus dedos sobre
a tua pele, onde me deito e o desejo rasga
a minha voz em asas de silêncio.
Acendem-se como lâmpadas para te encontrar
e, como aves libertas, acordam a noite,
poisam devagar nas tuas pernas,
debicam os teus seios
e descem lentamente as tuas costas até ao fundo e surpreendem-se,
enlouquecem as tuas nádegas macias e brancas,
quentes, como os alegres pães da minha infância.
E o teu corpo estremece, desperta para uma interminável madrugada,
onde não há palavras,
onde não são precisas palavras,
e uma intensa alegria tem o sabor dos teus beijos
quando os nossos lábios acendem uma fogueira de rosas
que ilumina a solidão pela noite fora.
E tudo me perturba. De tudo me esqueço
quando nos tocamos, assim, até ao fundo.
Quando me ofereces no teu corpo a paisagem livre e apetecida
de um campo perfumado,
um sereno lago,
o bosque vivo e húmido que me desafia e atrai,
onde me encontro e perco.
Oh, ama-me. Sem horas. Sem palavras.
Deixa-me esperar contigo a madrugada.
Sim, deixa que os meus dedos
como potros em fuga percorram mil vezes as dunas do teu corpo
e se escondam depois para dormir nos teus cabelos.
Deixa-me penetrar em ti como se fosse a última vez
e nada existisse depois.
Deixa que todo o amor percorra as nossas veias
até que nos doa o sangue,
até que os beijos nos desfaçam a boca
e os nossos corpos atinjam o orgasmo das estrelas e das rosas,
até que nada nos separe
a caminho de nós.
(Joaquim Pessoa)
14.1.06
Os Jardins de Adónis III
Foto retirada de www.flickr.com/Estranhos à terra, os namorados
O jardim os esconde do tempo
E pela alameda vão castos
Criando um puro sentimento
Para um vago paraíso deslizam
Numa luz chireante de beijos
Riem-se da morte e em seus riso
Jorra o claro riso dos deuses.
Figuras de uma indemne passagem
Entre os nossos letais desacertos,
Quem são esses vultos de aragem?
Ninguém sabe de que vida são feitos.
Que língua falam? Talvez os pássaros
Entendam seus sons estrangeiros.
Serão um sonho sob os álamos
Ou os únicos seres verdadeiros?
Onde vão? Misteriosos só param
Para ciciar dentro de um rainúnculo
Um segredo que as flores intactas
Repetem até ao fim do mundo.
(Natália Correia)
12.1.06
Clandestinas madrugadas
Foto retirada de http://pro.corbis.com/Quando
A noite geme
Baixinho
E vagueamos
Clandestinas madrugadas
Quando
Te encolhes
No meu peito
Silencias nos meus braços
E te fazes tão imensa
Quando
O desejo nos enlaça
E as mãos se libertam
Ansiosas
Quando
O fogo nos consome
Num ímpeto de prazer
E de calor
Há momentos de sono
E aventura
Há rios de amor
E de ternura
Há palavras rubras
De desejo
Há infinitos por detrás
De cada beijo
Há um corpo ardente
Que se abraça
Há lábios de fogo
E de loucura
Sedentos de beber
Na mesma taça.
(Albino Santos Oliveira)
11.1.06
Soneto de Amor
Foto retirada de http://pro.corbis.com/Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma … Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.
Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas …
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.
E em duas bocas uma língua …, – unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.
Depois … – abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada …
Deixa a vida exprimir-se sem disfarce!
(Eugénio de Andrade)
9.1.06
Coisa amar
Foto retirada de http://pro.corbis.com/Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.
Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.
Contar-te longamente que já foi
Num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como dói
desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.
(Manuel Alegre)
7.1.06
No rosto os olhos ...
Foto colhida em http://pro.corbis.com/No rosto os olhos são o sonho
Pelos lábios afloram silêncios
e trazes no corpo
a brisa da água
Girasol de uma manhã
Manhã de orvalho
Manhã de Amor.
(Fernando Bouça)
Subscrever:
Mensagens (Atom)
