25.1.06

Plena mulher ...

Foto retirada de happycarpenter.blogs.com/

Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
Que antiga noite o homem toca com seus sentidos?

Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos
e dois corpos por um só mel derrotados.

Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia

corre pelos ténues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo nocturno,
até ser e não ser senão na sombra um raio.

(Pablo Neruda)

23.1.06

Onde quero entender passa uma nuvem

Foto de Pedro Palma retirada de www.olhares.com/

Onde quero entender passa uma nuvem.
Malogra-se na sombra o vão intento.
Por mais que à luz os pensamentos uivem
Próprio é da vida banir o entendimento.

Ingénuo o coração despe-se e nu vem
A inocência soltar do sentimento.
Que à sem-razão do coração se curvem
Discursos que motivam o sofrimento.

Se a viver só me entendo com o que ignoro
Mais ciente serei se rio ou choro,
Menos me assiste o pensamento ufano.

Sucumba a ideia que a razão instiga
A esclarecer-me; que a mente entregue à intriga
Do entendimento não logra mais que engano.

(Natália Correia)

21.1.06

Tudo o que ficou por dizer

Foto de Manuela Vaz

Tudo o que ficou por dizer
porque de repente
era a hora do combóio
ou um telefone longínquo tocava
ou um qualquer acidente
aconteceu.

Tudo o que ficou por dizer
porque o pudor calou a voz
porque um orgulho surdo a interrompeu
porque as palavras talvez já nem chegassem
ou era tarde
e o cansaço aos poucos foi levando a melhor.

Tudo o que ficou por dizer
porque a dor doía em demasia
e era necessário que as palavras
fossem capazes de ser claras como o ar
porque as palavras traem
como gumes de facas que nos cortam.

Tudo o que ficou por dizer
porque a tristeza apertou tanto a garganta
que nenhum som saía
nem o olhar continha
em desespero
uma lágrima ainda assim contida.

Tudo o que ficou por dizer
porque o tempo urgente
se esvaía
e de repente já não estava
no lugar a quem havia que o dizer
quem ainda há pouco nos ouvia.

Tudo o que ficou por dizer
e tudo
o que ficou por dizer
ou tudo
sempre
por dizer.

(Bernardo Pinto de Almeida)

20.1.06

Pudesse eu ...

Foto de Guido Argentini

Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

17.1.06

Revelam-se puros os meus dedos ...

Nudes IV, de Alfred Gockel

Revelam-se puros os meus dedos sobre
a tua pele, onde me deito e o desejo rasga
a minha voz em asas de silêncio.
Acendem-se como lâmpadas para te encontrar
e, como aves libertas, acordam a noite,
poisam devagar nas tuas pernas,
debicam os teus seios
e descem lentamente as tuas costas até ao fundo e surpreendem-se,
enlouquecem as tuas nádegas macias e brancas,
quentes, como os alegres pães da minha infância.

E o teu corpo estremece, desperta para uma interminável madrugada,
onde não há palavras,
onde não são precisas palavras,
e uma intensa alegria tem o sabor dos teus beijos
quando os nossos lábios acendem uma fogueira de rosas
que ilumina a solidão pela noite fora.
E tudo me perturba. De tudo me esqueço
quando nos tocamos, assim, até ao fundo.

Quando me ofereces no teu corpo a paisagem livre e apetecida
de um campo perfumado,
um sereno lago,
o bosque vivo e húmido que me desafia e atrai,
onde me encontro e perco.

Oh, ama-me. Sem horas. Sem palavras.
Deixa-me esperar contigo a madrugada.
Sim, deixa que os meus dedos
como potros em fuga percorram mil vezes as dunas do teu corpo
e se escondam depois para dormir nos teus cabelos.

Deixa-me penetrar em ti como se fosse a última vez
e nada existisse depois.
Deixa que todo o amor percorra as nossas veias
até que nos doa o sangue,
até que os beijos nos desfaçam a boca
e os nossos corpos atinjam o orgasmo das estrelas e das rosas,
até que nada nos separe
a caminho de nós.

(Joaquim Pessoa)

14.1.06

Os Jardins de Adónis III

Foto retirada de www.flickr.com/

Estranhos à terra, os namorados
O jardim os esconde do tempo
E pela alameda vão castos
Criando um puro sentimento

Para um vago paraíso deslizam
Numa luz chireante de beijos
Riem-se da morte e em seus riso
Jorra o claro riso dos deuses.

Figuras de uma indemne passagem
Entre os nossos letais desacertos,
Quem são esses vultos de aragem?
Ninguém sabe de que vida são feitos.

Que língua falam? Talvez os pássaros
Entendam seus sons estrangeiros.
Serão um sonho sob os álamos
Ou os únicos seres verdadeiros?

Onde vão? Misteriosos só param
Para ciciar dentro de um rainúnculo
Um segredo que as flores intactas
Repetem até ao fim do mundo.

(Natália Correia)

12.1.06

Clandestinas madrugadas

Foto retirada de http://pro.corbis.com/

Quando
A noite geme
Baixinho
E vagueamos
Clandestinas madrugadas

Quando
Te encolhes
No meu peito
Silencias nos meus braços
E te fazes tão imensa

Quando
O desejo nos enlaça
E as mãos se libertam
Ansiosas

Quando
O fogo nos consome
Num ímpeto de prazer
E de calor
Há momentos de sono
E aventura
Há rios de amor
E de ternura
Há palavras rubras
De desejo
Há infinitos por detrás
De cada beijo
Há um corpo ardente
Que se abraça
Há lábios de fogo
E de loucura
Sedentos de beber
Na mesma taça.

(Albino Santos Oliveira)

11.1.06

Soneto de Amor

Foto retirada de http://pro.corbis.com/

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma … Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas …
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua …, – unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois … – abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada …
Deixa a vida exprimir-se sem disfarce!

(Eugénio de Andrade)

9.1.06

Coisa amar

Foto retirada de http://pro.corbis.com/

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
Num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como dói

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

(Manuel Alegre)

7.1.06

No rosto os olhos ...

Foto colhida em http://pro.corbis.com/

No rosto os olhos são o sonho
Pelos lábios afloram silêncios
e trazes no corpo
a brisa da água
Girasol de uma manhã
Manhã de orvalho
Manhã de Amor.

(Fernando Bouça)

6.1.06

Cosmocópula

Foto retirada de http://pro.corbis.com/

O corpo é praia a boca é a nascente
e é na vulva que a areia é mais sedenta
poro a poro vou sendo o curso de água
da tua língua demasiada e lenta

dentes e unhas rebentam como pinhas
de carnívoras plantas te é meu ventre
abro-te as pernas e deixo-te crescer
duro e cheiroso como o aloendro

(Natália Correia)

4.1.06

Dia de Outono

Foto colhida em http://pro.corbis.com/

Senhor: é mais que tempo. O verão foi muito intenso.
Lança a tua sombra sobre os relógios de sol
e por sobre as pradarias desata os teus ventos.

Ordena às últimas frutas que fiquem maduras,
dá-lhes ainda mais uns dois dias de calor,
leva-as à completude e não deixes de pôr
no vinho pesado sua última doçura.

Quem não tem casa não a irá mais construir.
Quem está sozinho vai ficá-lo ainda mais.
Insone, há de ler, escrever cartas torrenciais
e correr as aléias num inquieto ir-e-vir
enquanto o vento carrega as folhas outonais.

(Rainer Maria Rilke)
Tradução de José Paulo Paes

3.1.06

Charneca em flor

Foto retirada da net

Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciadas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E já não sou, Amor, Soror Saudade...

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

(Florbela Espanca)

1.1.06

Feliz 2006 !


Nas primeiras horas deste 2006, desejo a todos vós que por aqui vos "passeais" um ano pleno de Harmonia, Paz, Saúde, Amor, Alegria, Solidariedade, Amizade e dinheiro qb para ajudar a que tudo o resto se torne mais facilmente realidade.

29.12.05

Penélope

Foto de Karin Rosenthal colhida em www.photoarts.com/

mais do que um sonho: comoção!
sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

e recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor.

(David Mourão Ferreira)

28.12.05

Andorinha secreta de um verão



Andorinha secreta de um verão,
que só nós dois sabemos, te revelas.
De que longínqua e solitária estrela
vieste iluminar-me o coração?

De que planeta ainda inominado?
De que mistério astral, corpo solar,
patagónia celeste, ignoto mar,
provém o teu perfil sereno e amado?

(Daniel Filipe)

27.12.05

Natal



De repente o sol raiou
E o galo cocoricou:

– Cristo nasceu!

O boi, no campo perdido
Soltou um longo mugido:

– Aonde? Aonde?

Com seu balido tremido
Ligeiro diz o cordeiro:

– Em Belém! Em Belém!

Eis senão quando, num zurro
Se ouve a risada do burro:

– Foi sim que eu estava lá!

E o papagaio que é gira
Pôs-se a falar: – É mentira!

Os bichos de pena, em bando
Reclamaram protestando.

O pombal todo arrulhava:
– Cruz credo! Cruz credo!

Brava

A arara a gritar começa:

– Mentira? Arara. Ora essa!
– Cristo nasceu! – canta o galo.
– Aonde? – pergunta o boi.
– Num estábulo! – o cavalo
Contente rincha onde foi.

Bale o cordeiro também:

– Em Belém! Mé! Em Belém

E os bichos todos pegaram
O papagaio caturra
E de raiva lhe aplicaram
Uma grandíssima surra.

(Vinicius de Moraes)

23.12.05

História Antiga

Foto colhida em www.bethlehem.it/

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

(Miguel Torga)

Nota: Desejo a todos quantos por aqui passam um Bom Natal, pleno de Paz, Amor e Harmonia.

21.12.05

Presídio

Foto de Karin Rosenthal retirada de www.photoarts.com/

Nem todo o corpo é carne ... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco ...?

E o ventre, inconsistente como o lodo? ...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor ... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo ...

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono ...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

(David Mourão-Ferreira)

20.12.05

Incêndio



Tu acendes a chama
do meu corpo
pões a lenha ao fundo
em sítio seco

Procuras no desejo
o ponto certo
e convocas aí
o lume aberto

Se a madeira demora
a ganhar fogo
tomas-me as pernas
e deitas lento o vinho

Riscas os fósforos todos
e depois
é mais um incêndio
que adivinho

(Maria Teresa Horta)

18.12.05

Laisse courrir ...

Foto de www.7art-screensavers.com

Laisse courrir
dans les couloirs secrets de ton corps
les chevaux vertigineux de tes désirs.
Eux seules connaissent la destinée
que l'ésprit voilé par des brumes honteuses
n'ose pas découvrir.

(Natália Correia)

16.12.05

Avião

Foto colhida em afixe.weblog.com.pt

Apetecia-me oferecer-te já este livro
este pôr do Sol este avião

levar-te muito para um lugar tranquilo
trazer-te pelo ar uma canção

chamar um rio a ti quando com sede
do sono da manhã te levantasses

saber do vento o termo com que entende
o primaveril milagre dos lilases.

Apetecia-me ser noite ou ave ou luz
ou simplesmente a lua a iluminar-te

ou espelho desdobrando em corpos nus
teu corpo singular se vais deitar-te:

poderoso magneto, íman que induz
animal demente quando a amar-te.

(Bernardo Pinto de Almeida)

15.12.05

Pele

Foto colhida em http://pro.corbis.com/

Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser pele da minha pele

(David Mourão-Ferreira)

13.12.05

A noite que fica


Ao longe, ao luar,
No rio, uma vela
Serena a passar,
O que me revela
Não sei, mas meu ser
Tornou-se-me um estranho
E sonho, sem ver
Os sonhos que tenho.
Que angústia me enlaça,
Que amor não se explica.
É a vela que passa
Na noite que fica

(Fernando Pessoa)

11.12.05

Conselho

Paul Klee - Garden

Cerca de grandes muros quem te sonhas
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.

Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.

Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és —
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês ...

(Fernando Pessoa)

8.12.05

Encontro

Foto de Jomané em www.olhares.com/

Como se um raio mordesse
meu corpo pêro rosado
e o namorado viesse
ou em vez do namorado

um novilho atravessasse
meus flancos de seda branca
e o trajecto me deixasse
uma açucena na anca

como se eu apenas fosse
o efeito de um feitiço
um astro me desse um couce
e eu não sofresse com isso

como se eu já existisse
antes do sol e da lua
e se a morte me despisse
eu não me sentisse nua

como se deus cá em baixo
fosse um cigano moreno
como se deus fosse macho
e as minhas coxas de feno

como se alguém dos espaços
me desse o nome de flor
ou me deixasse nos braços
este cordeiro de amor

(Natália Correia)

6.12.05

Quase nada

Foto colhida em http://pro.corbis.com/

O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.

(Eugénio de Andrade)

3.12.05

Poesia

Foto colhida em http://pro.corbis.com/

Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem,
Sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?

(Fernando Pessoa)

1.12.05

Fernando Pessoa

Foto colhida em http://pro.corbis.com/

Como nuvens pelo céu
Passam os sonhos por mim.
Nenhum dos sonhos é meu
Embora eu os sonhe assim.

São coisas no alto que são
Enquanto a vista as conhece,
Depois são sombras que vão
Pelo campo que arrefece.

Símbolos? Sonhos? Quem torna
Meu coração ao que foi?
Que dor de mim me transtorna?
Que coisa inútil me dói?

(Fernando Pessoa), 17-6-1932

Nota: Já que no próprio dia não pude homenagear o mestre no aniversário do seu falecimento (ontem), aqui fica hoje a minha homenagem.

28.11.05

Mordo os teus lábios ...

"Mãe Natureza" de A. Brito em www.olhares.com

Mordo os teus lábios
e o mar vem manso
e tardio
Mordo a tua língua
e o desejo aproxima-se
lento e tardio
Mordo o recanto acolhedor
dos teus seios
e o mar vem morrer
no recanto
da tua púbis
a espraiar
Amor.

(Fernando Bouça)

26.11.05

Como açucena ...


Foto colhida em http://pro.corbis.com/

Como açucena, abre-se o teu rosto
por sobre a doce, tímida paisagem:
serena imagem
na manhã de Agosto.

Como magnólia, vertes o perfume
das tuas ancas sobre o pinheiral:
ávido lume
casto e sensual.

(Daniel Filipe)

22.11.05

Há dias e dias . . .

Foto colhida em http://pro.corbis.com/

Há dias em que sou monja
Há outros em que sou fêmea
E, embruxada, na fogueira
Do amor ponho mais lenha.

Nos dias em que sou monja
Ardo nos claustros da lua.
Nos dias em que sou fêmea
No sol arrefeço , pudica.

(Natália Correia)

20.11.05

Eu queria mais altas as estrelas ...

Foto colhida em www.acap-peru.org/

Eu queria mais altas as estrelas,
Mais largo o espaço, o sol mais criador,
Mais refulgente a lua, o mar maior,
Mais cavadas as ondas e mais belas;

Mais amplas, mais rasgadas as janelas
Das almas, mais rosais a abrir em flor,
Mais montanhas, mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas!

E abrir os braços e viver a vida,
- Quanto mais funda e lúgubre a descida
Mais alta é a ladeira que não cansa!

E, acabada a tarefa... em paz, contente,
Um dia adormecer, serenamente,
Como dorme no berço uma criança!

(Florbela Espanca)

18.11.05

Retrato


Tigre adormecido,
coração do dia.
Rosto semeado
de melancolia.

Noite transparente,
Primavera escura.
Sombra rodeada
de mar e brancura.

Tigre adomecido.
Coração do dia.
Puro e violento
incêndio de alegria.

(Eugénio de Andrade)

16.11.05

Semelhante à imóvel transparência ...


Foto colhida em http://pro.corbis.com/


Semelhante à imóvel
transparência
à inesgotável face
à pedra larga onde o olhar repousa

Água sombra e a figura
azul quase um jardim por sob a sombra
a iminência viva aérea
de uma palavra suspensa
na folhagem

Semelhante ao disperso ao ínfimo
chama-se agora aqui o sono da erva
a ligeireza livre
a nuvem sobre a página

in A Nuvem sobre a Página(1978)
(António Ramos Rosa)

13.11.05

Beijo os teus seios...

Foto colhida em http://pro.corbis.com/

Beijo os teus seios e a tarde comove-se
como se tocassem os sinos.
Levanto a tua cabeça entre os meus dedos e abro contra o dia os teus cabelos
e, logo, as aves do silêncio levantam voo e dançam loucas em volta dos teus olhos
e a tua boca aperta-se,
morde
a minha boca
enquanto as minhas mãos vão procurando nenhum deus à flor da tua pele
por esse caminho branco onde agonizam éguas
vestidas de primavera.

(Joaquim Pessoa)

9.11.05

Mar

Foto colhida em http://pro.corbis.com/

Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

5.11.05

O corpo


Porque em teu pénis pulsam os papiros
E de seda no sono és um vitelo,
Porque os anéis do plenilúnio adquire-os
A luz de que se ocupa o teu cabelo,

Porque ergues a cabeça e caem lírios,
porque abres a camisa e és muito belo,
Porque um gato de febre em teus delírios
Divaga meus quadris de terciopelo.

Porque eu saio da concha do vestido
E num palor de sol submetido
Declinas no meu fim inominável,

Porque nevo se estás no solstício,
És a paixão votada ao sacrifício
Que devo a uma estrela insaciável.

(Natália Correia)

3.11.05

Um amor como este ...

Um amor como este
não pede mar ou praia:
somente o vento leste
erguendo a tua saia.

O resto é o futuro
além, à nossa espreita:
doce fruto maduro
na hora da colheita.

(Daniel Filipe)

1.11.05

Alquimia


Abre a janela
Aquela, onde poisam os pardais
Procura a estrela que brilha mais
Coloca-a no teu peito
E aumenta-lhe o efeito
Com a ternura de um sorriso
Agora, apenas é preciso
Acrescentar uma pitada de poesia
Ou uma noite de amor…
Deixa aumentar o calor
(nada há que o evite)
Esquece a tristeza e verás
Que o céu é o limite
O paraíso és tu mesma quem o faz!

(Albino Santos)

29.10.05

Os jardins de Adónis IV

Foto de Rebeca McGaw em www.wrytersfyre.atspace.com

Alta na sombra a crista de agapantos,
Langue no lago a lua é uma sonata.
Vergam-se ao sono as rosas. Os amantes
Paseiam no jardim com pés de prata.

No repuxo chilreiam sons remotos.
Vultos de fumo expiram sob os plátanos.
Tudo se afasta. Uma elegia. Os mortos
Vêm buscar as flores que nos deixaram.

Cala-se o tempo. O amor procura
A sua estrela que caiu na relva.
Tudo se afasta. É estranhamente pura
A sensação de estarmos sós na terra.

(Natália Correia)

27.10.05

As sem-razões do amor


Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
E nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
E com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
É semeado no vento,
Na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
E a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
Bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
Não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
Feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
E da morte vencedor,
Por mais que o matem (e matam)
A cada instante de amor.

(Carlos Drummond de Andrade)

24.10.05

Eu sei, não te conheço mas existes ...

Foto de Karin Rosenthal colhida em www.photoarts.com/

Eu sei, não te conheço mas existes.
por isso os deuses não existem,
a solidão não existe
e apenas me dói a tua ausência
como uma fogueira
ou um grito.

Não me perguntes como mas ainda me lembro
quando no outono cresceram no teu peito
duas alegres laranjas que eu apertei nas minhas mãos
e perfumaram depois a minha boca.

Eu sei, não digas, deixa-me inventar-te.
ao é um sonho, juro, são apenas as minhas mãos
sobre a tua nudez
como uma sombra no deserto.
É apenas este rio que me percorre há muito e desagua em ti,
Porque tu és o mar que acolhe os meus destroços.
É apenas uma tristeza inadiável, uma outra maneira de habitares
Em todas as palavras do meu canto.

Tenho construído o teu nome com todas as coisas.
tenho feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente
desesperadamente
à tua procura, sempre á tua procura
até me dar conta que estás em mim,
que em mim devo procurar-te,
e tu apenas existes porque eu existo
e eu não estou só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti,
a ti que eu amo.

(Joaquim Pessoa)

22.10.05

Antes de tudo ...

"Mais além" de Vitor Melo

Antes de tudo, os olhos:
Aves de ternura, implorando ninhos
em árvore segura.
E a boca, ele viu-a fonte:
eterna nascente de fé no amor,
bordão do descrente.

Amaram-se em silêncios de espanto,
os dedos ávidos
descobrindo sementes de poemas
adormecidos nas fundas raízes dos corpos.
Esqueceram Deus porque Deus lhes perdoava
e esqueceram os homens
porque os homens os não conheciam.
As bocas
afogavam sombras de futuro
talhadas a incerteza
nas próprias almas
e demoraram-se no tempo
porque, cúmplice,
o tempo se demorou neles.

Beijaram-se, dizendo adeus
(quase que um rogo)
em cada peito
uma rosa cor de fogo.

Lelo (23/12/84)

20.10.05

A boca

Foto colhida em http://pro.corbis.com/

A boca,
onde o fogo
de um verão
muito antigo cintila,
a boca espera
(que pode uma boca esperar senão outra boca?)
espera o ardor do vento
para ser ave e cantar.

Levar-te à boca,
beber a água mais funda do teu ser
se a luz é tanta,
como se pode morrer?

(Eugénio de Andrade)

18.10.05

As Flores VII

Foto de Pedro Medeiros colhida em www.olhares.com/

Com fragrante delicadeza
De um mistério surges, ó rosa,
Para seres o prazo de beleza
Eternamente transitória;

O teu universo conciso
Só dura o tempo de, amistosa,
Dizeres num recado exíguo
Que o universo é uma rosa.

Nacarado prenúncio ou vestígio
De uma imcompreensível ordem,
É para renomear o prodígio
Que te damos um nome: rosa.

(Natália Correia)

15.10.05

Vegetal e só

Foto de Pedro Costa Pereira colhida em www.olhares.com/

É outono, desprende-te de mim.

Solta-me os cabelos, potros indomáveis
sem nenhuma melancolia,
sem encontros marcados,
sem cartas a responder.

Deixa-me o braço direito,
o mais ardente dos meus braços,
o mais azul,
o mais feito para voar.

Devolve-me o rosto de um verão
sem a febre de tantos lábios.
Sem nenhum rumor de lágrimas
nas pálpebras acesas.

Deixa-me só, vegetal e só,
correndo como um rio de folhas
para a noite onde a mais bela aventura
se escreve exactamente sem nenhuma letra.

(Eugénio de Andrade)

12.10.05

Auf einmal faßt die Rosenpflückerin


Auf einmal faßt die Rosenpflückerin
die volle Knospe seines Lebensgliedes,
und an dem Schreck des Unterschiedes
schwinden die (linden) Gärten in ihr hin.

(Rainer Maria Rilke)

A mulher colhe rosas. De repente
toca o membro vivo dele, botão
cheio. Assusta-a a diferença, e num instante
esvaem-se nela os jardins (de Verão).

(Tradução de João Barrento)

11.10.05

Não tenhas medo do amor

Foto colhida em www.jimnshelle.net/

Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.

(Maria do Rosário Pedreira)

8.10.05

Mes mains se cherchent . . .


Foto colhida em http://pro.corbis.com/

Mes mains se cherchent sur ton corps
pour saisir ta forme la plus compléte.
Si tu pars, je garderai la robe
de ta nudité parfaite.

(Natália Correia)

5.10.05

Se . . .


Foto de X. Maya colhida em http://www.olhares.com/


Se o luar agora transbordasse
Da lua cheia e num enleio
Sua luz branda me abraçasse
E me fechasse dentro do seio . . .

Se o sol magnânimo soltasse
Um fio quente do seu cabelo
E no segredo me enrolasse
Do seu dourado novelo . . .

Se um astro agora me arrebatasse
Na sua luz e de repente
A minha sombra se iluminasse
E caminhasse na minha frente . . .

(Natália Correia)

4.10.05

Um Adeus Português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensangüentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio [puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti


(Alexandre O'Neil)