19.9.07
As Amoras
O meu país sabe a amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
(Eugénio de Andrade), O outro nome da Terra
30.7.07
22.7.07
A felicidade
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranqüila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor
A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar
A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite, passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Pra que ela acorde alegre com o dia
Oferecendo beijos de amor
(Vinicius de Moraes)
11.7.07
Como roubar um coração
Para se roubar um coração é preciso que seja
com muita habilidade,
tem que ser vagarosamente, disfarçadamente,
não se chega com ímpeto,
não se alcança o coração de alguém com pressa.
Tem que se aproximar com meias palavras,
suavemente, apoderar-se dele
aos poucos, com cuidado.
Não se pode deixar que
percebam que ele será
roubado, na verdade, teremos que
furtá-lo, docemente.
Conquistar um coração de verdade dá
trabalho, requer paciência, é
como se fosse tecer uma colcha de retalhos,
aplicar uma renda em um
vestido, tratar de um jardim,
cuidar de uma criança.
É necessário que seja com destreza,
com vontade, com encanto,
carinho e sinceridade.
Para se conquistar um coração definitivamente
tem que ter garra e
esperteza, mas não falo dessa esperteza que
todos conhecem, falo da
esperteza de sentimentos, daquela que existe
guardada na alma em
todos os momentos.
Quando se deseja realmente conquistar um
coração, é preciso que antes
já tenhamos conseguido conquistar o nosso,
é preciso que ele já tenha
sido explorado nos mínimos detalhes, que
já se tenha conseguido
conhecer cada cantinho, entender cada espaço
preenchido e aceitar
cada espaço vago.
...e então, quando finalmente esse coração
for conquistado, quando
tivermos nos apoderado dele, vai existir
uma parte de alguém que
seguirá connosco.
Uma metade de alguém que
será guiada por nós e o
nosso coração passará a bater por
conta desse outro coração.
Eles sofrerão altos e baixos sim, mas com
certeza haverá instantes,
milhares de instantes de alegria.
Baterá descompassado muitas vezes e
sabe por quê?
Faltará a metade dele que
ainda não está junto de nós.
Até que um dia, cansado de estar dividido
ao meio, esse coração
chamará a sua outra parte e alguém por
vontade própria sem que
precisemos roubá-la ou furtá-la nos entregará
a metade que faltava.
... e é assim que se rouba um coração,
fácil não? Pois é, nós só
precisaremos roubar uma metade, a outra virá
na nossa mão e ficará
detectado um roubo então!
E é só por isso que encontramos tantas pessoas
pela vida a fora que
dizem que nunca mais conseguiram amar
alguém......é simples.......é
porque elas não possuem mais coração,
eles foram roubados, arrancados
do seu peito, e somente com um grande amor
ela terá um novo coração,
afinal de contas, corações são para
serem divididos, e com certeza
esse grande amor repartirá o dele com você!!!!
(Luís Fernando Veríssimo)
29.6.07
livros ...
O convite foi feito pelo TCA, do Abstracto Concreto II. Esolhi 5 livros que gosto.
Confesso que ultimamente não tenho muito tempo para ler, ler mesmo, como eu gosto, sem adormecer de cansaço em cima do livro ou deixando-o cair para o lado. Sempre li muito. Agora só as férias permitem pôr a leitura em dia lendo sem grandes limites.
Entretanto foi difícil escolher 5 livros ... há tantos livros que me marcaram, tantos que releio ciclicamente, tantos livros que considero verdadeiras obras de arte, verdadeira literatura intemporal e que, como tal, são incontornáveis. Enfim, escolhi os promeiros cinco que me vieram à mente. Aqui fica a lista:
“Natália Correia – Poesia Completa” – Natália em todas as facetas poéticas, onde se encontra um poema para cada estado de alma.
“Paiol de Pólvora” de Joaquim Pessoa – a capa roxa do livro já está tão desbotada que é mais lilás que outra coisa, sinal de que tenho o livro há muito tempo e o leio sempre que me apetece, ao sabor da alma.
“As Mãos e os Frutos” de Eugénio de Andrade – dos muitos que tenho do poeta, o meu preferido, que não me canso de reler. Como diz Jorge de Sena, foi “ escrito, assim, com lucidez sem angústia, ardor sem ingenuidade, segurança sem complacência, inquietação sem azedume, tranquilidade sem ignorância, e com franqueza discreta, elegância viril, naturalidade para além do desafio (…).”
“A Insustentável Leveza do Ser” de Milan Kundera – um romance que me transporta para o campo do imaginário sem que eu dê por isso. Ciclicamente volto a este livro.
“As Pontes de Madison County” de Robert James Waller – obra marcante porque acredito no Amor como força motriz que tudo transforma e tudo torna possível …
Dito isto, passo a palavra (ou a "batata quente") a:
18.6.07
A gazela
Gazella Dorcas
Mágico ser: onde encontrar quem colha
duas palavras numa rima igual
a essa que pulsa em ti como um sinal?
De tua fronte se erguem lira e folha
e tudo o que és se move em similar
canto de amor cujas palavras, quais
pétalas, vão caindo sobre o olhar
de quem fechou os olhos, sem ler mais,
para te ver: no alerta dos sentidos,
em cada perna os saltos reprimidos
sem disparar, enquanto só a fronte
a prumo, prestes, pára: assim, na fonte,
a banhista que um frêmito assustasse:
a chispa de água no voltear da face.
(Rainer Maria Rilke)
Tradução: Augusto de Campos
2.6.07
Fiz um conto para me embalar
Fiz com as fadas uma aliança.
A deste conto nunca contar.
Mas como ainda sou criança
Quero a mim própria embalar.
Estavam na praia três donzelas
Como três laranjas num pomar.
Nenhuma sabia para qual delas
Cantava o príncipe do mar.
Rosas fatais, as três donzelas
A mão da espuma as desfolhou.
Nenhuma soube para qual delas
Príncipe do mar cantou.
(Natália Correia)
26.5.07
Os caminhos da alma ...
Os caminhos da alma
São como os do corpo
Desejosos de no mais longe
encontrar o ciciar duma voz
que diga:
Faz o que os códigos não permitem.
(Fernando Bouça)
18.5.07
Dentro de mim
vive um pássaro
sempre que me amas
sinto-o rasgar-me o peito
e partir ao teu encontro,
enquanto sufocas gritos
e respiras prazer.
(Ulisses Rolim)
26.4.07
Quasi
Um pouco mais de sol - eu era brasa
Um pouco mais de azul - eu era além
Para atingir, faltou-me um golpe de asa ...
Se ao menos eu permanecesse aquém ...
Assombro ou paz ? Em vão ... tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor ! - quase vivido ...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o principío e o fim - quase a expansão ...
Mas na minh´alma tudo se derrama ...
Entanto nada foi só ilusão !
De tudo houve um começo ... e tudo errou ...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim ...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se lançou mas não voou ...
Momentos de alma que, desbaratei ...
Templos aonde nunca pus um altar ...
Rios que perdi sem os levar ao mar ...
Ânsias que foram mas que não fixei ...
Se me vagueio, encontro só indicios ...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de heroi, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios ...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí ...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi ..
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa ...
Se ao menos eu permanecesse aquém ...
(Mário de Sá-Carneiro)
22.4.07
Prémio ...
A Lena do Cabana de Palavras atribuiu-me o prémio "Thinking Blogger Award" ... e deixou-me mesmo a ... pensar! :-)
Aqui lhe deixo um agradecimento especial por tal distinção!
Agora fico com uma difícil e espinhosa missão: para cumprir o regulamento, tenho de nomear cinco blogs como sendo os meus preferidos! Claro que os blogs que me fazem pensar e me deliciam e proporcionam bons momentos são muitos mais que cinco ... Bem, "noblesse oblige", tenho de cumprir as regras (será que vale entrar em círculo vicioso e nomear quem nos nomeou??? Não deve ser muito ético!). Aqui ficam pois os cinco que distingo com o "Thinking Blogger Award" :
... a magia das palavras ...
Fotos belíssimas e palavras plenas de magia que me transportam a outra dimensão ...
Coisas da Gaveta
Textos que nos chegam através da mão e dos olhos do Gui cuja prosa poética me delicia.
Espelhos
Momentos belos que nos fazem pensar e sentir bem; "cantinho" onde imagem, palavra e música se combinam na perfeição.
Eternamente Menina
Poesia belíssima ora escrita pela Menina como só ela sabe, ora seleccionada por ela com mestria e bom gosto. Juntando a isto ilustrações belíssimas - eis um blog que não perco.
Passo a Passo
Fotos da vida enquandradas por palavras bem escritas que nos fazem pensar e nos deliciam a alma.
Aqui fica uma flor para a Lena e para os por mim nomeados .
10.4.07
Ao longe, ao luar ...
Ao longe, ao luar,
No rio, uma vela
Serena a passar,
O que me revela
Não sei, mas meu ser
Tornou-se-me um estranho
E sonho, sem ver
Os sonhos que tenho.
Que angústia me enlaça,
Que amor não se explica.
É a vela que passa
Na noite que fica
(Fernando Pessoa)
21.3.07
Minuete invisível
Elas são vaporosas,
Pálidas sombras, as rosas
Nadas da hora lunar...
Vêm, aéreas, dançar
Com perfumes soltos
Entre os canteiros e os buxos...
Chora no som dos repuxos
O ritmo que há nos seus vultos...
Passam e agitam a brisa...
Pálida, a pompa indecisa
Da sua flébil demora
Paira em auréola à hora...
Passam nos ritmos da sombra...
Ora é uma folha que tomba,
Ora uma brisa que treme
Sua leveza solene...
E assim vão indo, delindo
Seu perfil único e lindo,
Seu vulto feito de todas,
Nas alamedas, em rodas,
No jardim lívido e frio...
Passam sozinhas, a fio,
Como um fumo indo, a rarear,
Pelo ar longínquo e vazio,
Sob o, disperso pelo ar,
Pálido pálio lunar ...
(Fernando Pessoa)
4.3.07
De onde me chegam estas palavras?
Nunca houve palavras para gritar a tua ausência
Apenas o coração
Pulsando a solidão antes de ti
Quando o teu rosto doía no meu rosto
E eu descobri as minhas mãos sem as tuas
E os teus olhos não eram mais
que um lugar escondido onde a primavera
refaz o seu vestido de corolas.
E não havia um nome para a tua ausência.
Mas tu vieste.
Do coração da noite?
Dos braços da manhã?
Dos bosques do Outono?
Tu vieste.
E acordas todas as horas.
Preenches todos os minutos.
acendes todas as fogueiras
escreves todas as palavras.
Um canto de alegria desprende-se dos meus dedos
quando toco o teu corpo e habito em ti
e a noite não existe
porque as nossas bocas acendem na madrugada
uma aurora de beijos.
Oh, meu amor,
doem-me os braços de te abraçar,
trago as mãos acesas,
a boca desfeita
e a solidão acorda em mim um grito de silêncio quando
o medo de perder-te é um corcel que pisa os meus cabelos
e se perde depois numa estrada deserta
por onde caminhas nua.
(Joaquim Pessoa)
19.2.07
Fresta
Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,
Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou aterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado
Revivo, existo, conheço,
E, ainda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.
(Fernando Pessoa)
14.2.07
Anjo do teu corpo
A parte que é
anjo
do teu corpo
e me procura a meio
da madrugada
Sobrevoando o lago
que é suposto
ser no meu sono
aquilo que calava
A parte que é
anjo
no teu corpo
e me visita
a meio da madrugada
descansando as asas
dos teus ombros
a meu lado:
em cima da almofada
(Maria Teresa Horta)
10.2.07
Aonde
Ando a chamar por ti, demente, alucinada,
Aonde estás, amor? Aonde... aonde... aonde?...
O eco ao pé de mim segreda... desgraçada...
E só a voz do eco, irónica, responde!
Estendo os braços meus! Chamo por ti ainda!
O vento, aos meus ouvidos, soluça a murmurar;
Parece a tua voz, a tua voz tão linda
Cantando como um rio banhado de luar!
Eu grito a minha dor, a minha dor intensa!
Esta saudade enorme, esta saudade imensa!
E só a voz do eco à minha voz responde...
Em gritos, a chorar, soluço o nome teu
E grito ao mar, à terra, ao puro azul do céu:
Aonde estás, amor? Aonde... aonde... aonde?...
(Florbela Espanca)
4.2.07
Pantera
No Jardin des Plantes, Paris
De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.
A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.
De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.
(Rainer Maria Rilke)
(Tradução: Augusto de Campos)
23.1.07
Aquela Ilha ...
Aquela Ilha esquecida
Que eu habito adormecida
Que, à noite, eu vou habitar;
Aquela Ilha encantada
Que não se encontra de dia,
Pois fica na madrugada;
A Ilha não descoberta,
Onde a criptoméria aberta
Espalha em volta o luar;
A Ilha desconhecida
Que pelos caminhos do sonho
Se mostra a quem a buscar.
Àquela Ilha distante,
Não há ninguém que se afoite ...
Aquela Ilha esquecida
Que só tem um habitante:
Eu que lá vivo de noite ...
(Natália Correia)




















